segunda-feira, 9 de setembro de 2019

2.5 A ORIGEM DO MAL


O propósito do autor bíblico no capítulo três, de Gênesis, se traduz na tentativa de responder como o mal surgiu no mundo e como se alastrou, ganhando proporções gigantescas, tal qual hoje se observa no mundo.
Para tanto e de forma muito apropriada e atual reuniu três tipos de consciência, vestidas nas imagens de Adão, Eva e a Serpente.
 No entanto, é preciso ponderar que o texto bíblico não responde todas as incógnitas do universo. É da sua estrutura ser incompleto, porque não esgota o assunto a que se propõe discorrer. O texto bíblico possui intertextualidade, relacionando-se com vários outros textos. Por isso é que nos textos bíblicos não há informação precisa sobre determinado elemento tratado. E isso é proposital. Exemplos: de onde veio a serpente? Qual a história da serpente? O texto descreve a criação de Adão e Eva, situando-os no jardim e de repente aparece uma serpente astuta, cheia de ardil, cuja origem não foi descrita, nem como adquiriu esse conhecimento.
O texto é, portanto, repleto de informações expressas e informações implícitas, exigindo profundas reflexões. Por isso se diz que a torá tem setenta faces. Como o presente estudo se dá à luz da doutrina espírita, essas lacunas serão refletidas à luz dos princípios espíritas.
Voltando a ideia desenvolvida nos tópicos anteriores, pode-se reconhecer nas três imagens, Adão, Eva e Serpente, três padrões psíquicos, que representam a rebeldia do espírito que rompe relações com Deus e, a partir deste rompimento, o mal surge na terra. Por isso, toda narrativa bíblica representa a história humana de quedas no mal até a chegada de Jesus, que vem ensinar o retorno a Deus, a volta ao Paraiso.
Neste sentido, há um entendimento comum entre os estudiosos do Evangelho, os quais concluem que todos os demais livros, história, personagens e acontecimentos posteriores, inclusive a ação libertadora de Jesus, são consequência da aceitação da proposta serpente por Eva e Adão.
Relativamente aos tipos psíquicos apresentados nas imagens de Adão, Eva e Serpente, pondera-se o seguinte:
A serpente representa o padrão psíquico voltado para o mal. Traz na consciência de forma proeminente o apego a matéria, o orgulho, a prepotência, a revolta contra as leis divinas e o descaso para com Deus. A serpente é representante do vício e da paixão, pois age deliberadamente, se deleita e lucra com o mal praticado.
Eva representa o padrão psíquico descompromissado com as leis divinas. Não deseja a prática do mal, mas oscila entre bem e o mal, a humildade e orgulho, a caridade e o egoísmo. Traz forte na consciência o traço do interesse pessoal, por isso é facilmente arrastada ao mal.
A queda de Eva é fruto da fragilidade ética ditada pelo interesse pessoal. O anseio de destaque, de glória, de aplausos, de reconhecimento, como necessidade de se preencher fissuras na personalidade, amenizar problemas de autoestima, ou preencher o vazio interior, leva a criatura, não raras vezes, a adquirir complicações cármicas. Esse tipo psíquico cresce espiritualmente através das ilusões que salteiam (roubam) a inteligência, conforme assinala o espírito Emmanuel, no livro Pensamento e Vida, capítulo 1.
O psiquismo do tipo Eva faz coisas que, do ponto de vista ético, não concorda, mas acaba fazendo por estar com a consciência assaltada pelas ilusões, fruto do interesse pessoal. É bem diferente do psiquismo da serpente, que faz o mal por prazer deliberado.
Adão representa o tipo psíquico omisso, que não se permite refletir, analisar, que não pensa nas consequências, não se conhece, não tem autodomínio, não está espiritualmente acordado. O apostolo Paulo[1] chamava esses tipos psíquicos como aqueles que dormem. Vive fisicamente para atender suas necessidades fisiológica, mas psicologicamente dorme. Não é mal, mas não é bom. Segue pelo mundo apenas usufruindo. Usufrui dos recursos naturais, da generosidade das pessoas, usufruiu dos talentos da vida, passam pela vida como uma espécie de predadores, consomem e usufruem de tudo, e nunca cogitam de retribuir.
Adão e Eva são tipo psíquicos humanos, que ainda não despertaram para os valores superiores da vida. A serpente é o tipo psíquico ainda comprometido com os instintos animalizados, em razão da densidade no mal, trazendo na personalidade alto grau de violência, rebeldia e completo descaso para com os outros. Somente a dor imensa e profunda conseguirá, ao longo dos séculos, transformar o psiquismo serpente, harmonizando-o às leis divinas.
É possível perceber em vários diálogos de Jesus, a presença desses três psiquismos. O Mestre dispensa a cada um deles tratamento diferente, aplicando seus ensinamentos e advertência de forma específica a cada um, considerando a sua necessidade de despertamento espiritual. 
É por isso que no diálogo com a mulher equivocada, a mulher adultera, descrita em João 8, 1-11, que não é o tipo psiquismo serpente, Ele recomenda a ela recomeçar a vida – vá e não tornes a pecar. Mas com os fariseus maliciosos, psiquismos serpente, Jesus, para adverti-los da maldade impregnada em seus corações, os trata por raça de víboras ou serpente, conforme está em Mateus 12,34 e João 8:44.
A origem do mal no mundo é retratada pela imagem descrita no capítulo terceiro, de Gênesis, quando Adão e Eva, criados as imagem e semelhança de Deus, trocaram o projeto divino que Deus tinha para eles, por um projeto pessoal. Corromperam-se moralmente. E esse processo de corrupção que começou com Adão e Eva, cresce exponencialmente, avassaladoramente, chegando a contaminar todas as sociedades e todas as comunidades, espalhando-se por todas as nações da Terra. E, assim, a desigualdade, o crime, a violência, foi multiplicada, multiplicando-se os casos de depressão e suicídio, porque multiplicou-se o egoísmo e a indiferença.
É tão evidente o projeto serpente no mundo atual que é possível encontrar, nas diversas áreas do conhecimento, um propósito de distanciamento de Deus e até mesmo sua negação. Este é a marca da serpente. É o projeto do homem sem Deus. O homem acreditando que pode tudo, sem Deus. E assim, a serpente, de Gênesis, transforma-se no Dragão, nas profecias de Daniel e, mais tarde, na besta apocalíptica, do livro Apocalipse, de João.


[1] “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre a tua pessoa” Efésios 5:14

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